quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Voz no Ponto - A Intervenção

O processo

Em um longo processo de elaboração e testes para a intervenção/interferência que faríamos na cidade de Catas Altas, ao chegarmos lá, dividimos as tarefas entre os integrantes do grupo, para que assim tudo corresse em seu devido tempo e que a intervenção desse certo.

Logo que chegamos em Catas Altas, parte da equipe passou a entrevistar as pessoas da cidade, deixando-as expressar suas opiniões e críticas em relação ao lugar onde moravam. Nós perguntávamos de forma que as informações que recebíamos eram as mais amplas possíveis, muitas vezes memórias dos próprios moradores da cidade. Era importante deixá-los à vontade para expressar o que quisessem, uma vez que Voz no Ponto tratava exatamente de dar voz àquilo que as pessoas tivessem para falar.

Também foram feitas imagens da cidade e das pessoas, em diferentes lugares da região e momentos do dia, gravando até mesmo detalhes como diferentes texturas. Mais tarde, essa filmagem seria projetada na nossa intervenção.

Assim que chegamos, também, passamos a continuar o processo de divulgação que já havíamos começado nas redes sociais, mas agora colando cartazes pela cidade e convidando as pessoas a participarem de uma ação que seria realizada especialmente para elas. 

Para a instalação no ponto de ônibus no bairro, nos utilizamos da energia elétrica proveniente do bar ao lado do ponto, de forma que colocamos metros e mais metros de extensão até que este alcançasse o nosso local escolhido. De lá, montamos todo um sistema elétricos na parte superior das toras de madeira, de forma que à noite, a fiação estaria praticamente invisível. 

Para as caixinhas de som e as formas geométricas, pintamos todas em azul (remetendo à logo Voz no Ponto), e as distribuímos em todo o ponto, colando-as à madeira. De lá sairiam os áudios contendo as entrevistas feitas previamente.

Confeccionamos, também, pequenas luminárias em papel paraná (mesmo material para as formas geométricas), fazendo pequenos furos nelas e pintando-as de preto, e instalamos quatro delas, sendo duas dentro do ponto,e duas direcionadas um pouco mais para fora.

Para fixar o projetor ao ponto, o prendemos com lacres de uma forma que pudéssemos manuseá-lo mesmo que estivesse fixo ao ponto, para ajustes e melhoras mais perto do momento da intervenção.













A execução

Logo ao anoitecer, as pessoas começaram a se aproximar. E, o que aquelas pessoas que sempre estavam ali viam ao passar? Totalmente estranho e diferente do normal, haviam imagens sendo projetadas na grama atrás do ponto. O ponto, que sempre havia sido um local totalmente escuro, estava iluminado e realmente convidativo. E quanto mais próximo dele, mais podiam-se ouvir vozes misturadas, talvez de uma ou outra pessoa que alguém conhecesse. Este foi o clima que conseguimos criar, para torná-lo atraente para as pessoas que passariam, assim como aquelas que iriam ali especialmente para participar do nosso pequeno projeto.

Em geral, algumas pessoas tinham receio de se aproximar. Afinal, o que seria aquilo no bairro delas, que elas nunca sequer ouviram falar e do nada estava ali? Mas com o tempo, e com uma maior aproximação de outras pessoas, o medo foi sendo superado pela curiosidade, e então, elas se aproximavam.

Enquanto pessoas sentavam, ou acomodavam-se para ouvir o que as caixinhas de som emitiam, outras passavam na frente da projeção, brincando com a imagem que era projetada em suas roupas e na própria grama. 

Era visível a diferença que as luminária faziam, dando um aspecto completamente diferente ao ponto, tornando-o sem dúvidas mais atrativo para aqueles que passavam ou ali ficavam.






 

   

 

 







Ainda que tenhamos conseguido executar a intervenção sem maiores problemas, e que muitas pessoas tenham participado dela, queríamos que mais pessoas tivessem participado, sem medo de se expor ou de falar o que realmente pensa, nem de fazer parte da voz ativa daquela cidade frente aos seus problemas. Porém, é muito difícil (ainda que não impossível) engajar uma população que não está acostumada a esse tipo de ação, e talvez se pudéssemos refazer a intervenção, pensaríamos em artifícios que as chamassem com mais eficácia.

É muito importante que elas saibam que elas tem, sim, voz ali. Para exigir seus direitos, para reclamar sobre o que não estão satisfeitas, para reivindicar mudanças e melhorias. A cidade é delas, e para elas. 

Principalmente as pessoas do bairro Vista Alegre, as quais sentem-se abandonadas e esquecidas, tanto pela esfera política quanto pelo resto da cidade. E elas ficavam indignadas com isso! Porque segundo elas, era aquele o melhor bairro da cidade. E por que aquelas pessoas se queixavam de abandono? E por que não, então, levantar a voz e lutar pelo que é seu por direito?

Conversamos com tantas pessoas, e tantas outras, receptivas, chegavam até nós para contar de suas experiências e sabedorias. São pessoas humildes, mas não no sentido estritamente econômico da coisa. São pessoas humildes, sem interesse impróprio nenhum em apenas chegar e começar uma conversa animada e distraída. São pais, filhos, trabalhadores, estudantes, assim como todas as outras pessoas da cidade. E são, principalmente, pessoas que sentem que seu bairro teria todo o potencia de ser um bairro melhor, mas que também sabem que para o governo, ainda não são prioridade.

Posso afirmar, com toda a certeza que tenho, que aprendemos muito com elas. Aprendemos muito com todo o processo de interagir, conversar, ouvir suas histórias, sentir suas dores e decepções quanto à cidade, e até mesmo quanto à vida de um modo geral. 

Esperamos, sinceramente, que os moradores do bairro Vista Alegre, assim como de toda a cidade, nunca desistam de lutar pelos direitos que são seus, para que sempre possam construir uma cidade cada vez melhor de morar e construir, assim, suas histórias. 

Enquanto Voz no Ponto, cumprimos nossa parte. 
Que agora seja a vez deles.


Voz no Ponto
Alice Werner
Emidio Souza
Fernanda Nobre
Gabriela Castro
Júlia Candelária
Libner Melo
Mariana Belo
Sara Lins

Créditos às fotos
Fernanda Nobre
Sara Lins
Guilherme de Vasconcelos